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BOVARD BLOG

 

translated by Murilo Otávio Rodrigues Paes Leme
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O Outro Fracasso de McNamara
por James Bovard, 9 de julho de 2009

O ex-Secretário de Defesa Robert McNamara, que morreu no dia 6 de julho, era melhor conhecido por pôr lenha na fogueira da guerra do Vietnã graças às asseverações falsas que fornecia ao Presidente Johnson, ao Congresso, e ao povo estadunidense.

Apesar de suas mentiras, que vastamente estenderam um conflito desnecessário e custaram mais de um milhão de vidas estadunidenses e vietnamitas, McNamara está sendo propalado como grande homem. Um artigo opinativo do New York Times louvou-o como o membro mais compassivo do gabinete da administração Johnson.

Depois que McNamara renunciou ao cargo de secretário de defesa no início de 1968, LBJ nomeou-o presidente do Banco Mundial. Uma homenagem do Washington Post elogiou-o como “líder da ajuda financeira ao estrangeiro” e realçou que ele “foi muitas vezes descrito como ‘a consciência do Ocidene,’ por seus incansáveis esforços para persuadir o mundo industrializado a destinar mais capital para melhorar a vida nos países de pessoas sem recursos.” Os empréstimos do Banco Mundial multiplicaram-se por doze (ascendendo a US$ 12 triliões por ano) durante o período de 13 anos de McNamara.

Contudo, em vez de motivo de orgulho, o período de McNamara no Banco Mundial representa infâmia tão duradoura quanto seu histórico no tocante ao Vietnã. Uma biografia do Banco Mundial observa que, durante o período de McNamara, “foram relaxadas as regras estritas anteriormente existentes para empréstimos a instituições bancárias ou empresas do setor público.” O esboço oficial da presidência de McNamara observa que “a confiança que ele tinha na intervenção do governo por vezes levou-o a fazer vista grossa para práticas coercitivas... e podia levar o Banco a ignorar a ineficiência e o preço econômico das políticas do governo.”

O líder estrangeiro favorito de McNamara era Julius Nyerere, governante da Tanzânia, país que recebeu mais ajuda bancária per capita do que qualquer outro naquela década. No início dos anos 1970, com ajuda e aconselhamento do Banco Mundial, Nyerere enviou o exército tanzaniano para expulsar os camponeses de suas terras, queimar suas choupanas, embarcá-los em caminhões, e levá-los para onde o governo entendia que eles deveriam viver. Os camponeses então receberam ordem de construir novas casas “dispostas em fileiras rigorosas delineadas pelas autoridades do governo.”

Nyerere quis restringir as tendências individualistas e capitalistas de seus compatriotas e fazê-los mais fáceis controlar. Ele tornou proscritas pessoas até por dormirem nas suas hortas à noite, com o que os macacos viam-se livres para servirem-se do que elas produziam. Em muitos casos, as novas aldeias estabelecidas pelo governo ficavam distantes das terras dos próprios agricultores e, assim, estes simplesmente desistiam de amanhar a terra, donde a fome na Tanzânia grassar.

O Banco Mundial de McNamara financiou as brutais políticas do governo vietnamita no final dos anos 1970. O banco deu um "empréstimo" sem juros de US$ 60 milhões ao governo do Vietnã em 1978, mesmo depois de relatos, largamente feitos circular no Ocidente, acerca de enormes campos de concentração e de repressão brutal. O banco anunciou que o empréstimo financiaria “um projeto de irrigação que aumentará a produção de arroz.” Contudo, um relatório confidencial do banco reconheceu que “o principal esforço na lide com o problema do emprego [no sul] consiste na criação de Novas Zonas Econômicas — assentamentos agrícolas destinados a reassentar [à força] 4 ou 5 milhões de pessoas até o fim de 1980.” Os agricultores que resistiram à "reorganização" do governo foram despachados em barcos mal vedados, e milhares afogaram-se no sul do Mar da China.

A partir de 1976, o Banco despejou centenas de milhões de dólares em um esquema do governo da Indonésia para remover — por vezes à força — vários milhões de pessoas da ilha densamente povoada de Java e reassentá-las em ilhas comparativamente áridas. Um crítico australiano observou que essa transmigração foi basicamente “a versão javanesa do lebensraum(*) da Alemanha nazista.”
(*) Ver, em português, http://pt.wikipedia.org/wiki/Lebensraum

A profusão de ajuda de McNamara permitiu a políticos em África, Ásia e outros lugares açambarcarem muito mais poder sobre agricultores, homens de negócios, proprietários fabris, e outras pessoas produtivas. O resultado foi uma profusão de monopólios estatais que ajudaram a destruir a esperança de gerações inteiras.

Como o editor de Counterpunch e autor Alexander Cockburn observou, “o ideal administrativo de McNamara era a ditadura administrativa. Os empréstimos do Banco Mundial aumentaram no Chile de Pinochet depois da derrubada de Allende, no Uruguai, na Argentina, no Brasil depois do golpe militar, nas Filipinas, para Suharto depois do golpe de 1965 na Indonésia, e na Romênia de Ceausescu.”

Enquanto McNamara pôde continuar aumentando os montantes brutos dos empréstimos do Banco Mundial, continuou fingindo estar salvando o mundo. McNamara financiou governos socialistas baseado no mesmo tipo da estatística falsa com que costumava justificar a expansão da guerra dos Estados Unidos no Vietnã. Empavonava-se como vencedor do comunismo ou da pobreza mundial escudado pelas estatísticas espúrias.

Mesmo depois de transformar em escombros boa parte do globo, Robert McNamara ainda era tratado pela maior parte dos meios de comunicação dominantes como "o melhor e o mais brilhante.” (O Washington Post nomeou-o para sua diretoria). Os cidadãos deveriam ser cautelosos no tocante àqueles que colocam halos em opressores brutais da humanidade.

James Bovard é ex-consultor do Banco Mundial - World Bank, autor de Democracia de Déficit de Atenção Attention Deficit Democracy [2006] bem como de A Traição de Bush The Bush Betrayal [2004], Direitos Perdidos Lost Rights [1994] e Terrorismo e Tirania: Pisoteamento da Liberdade, da Justiça e da Paz para Livrar o Mundo do Mal Terrorism and Tyranny: Trampling Freedom, Justice and Peace to Rid the World of Evil (Palgrave-Macmillan, setembro de 2003) e atua como conselheiro de políticas da Fundação Futuro de Liberdade - The Future of Freedom Foundation. Mande-lhe email.